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terça-feira, 9 de junho de 2009

Novidades fresquinhas

Sim, já cá não passava há imenso tempo, mas as horas do dia não são suficientes para a loucura que é a vida por estes lados. Como me faz falta o ritmo de Portugal! Bem, quem me conhece sabe que o meu ritmo é algo mais apressado que os dos demais no nosso Portugal à Beira-Mar plantado, mas nada se compara ao ritmo de Tóquio. O cansaço físico, mas sobretudo o psicológico desta vida de correria frenética é suficiente até para me sugar a vontade de ler, escrever, dançar ou passear. Agora compreendo as multidões de alunos que dormem na Biblioteca ao longo do dia, e os muitos passageiros que não aguentam o João Pestana durante as viagens de comboio.
O tempo continua a pregar-me muitas partidas... Corre acelerado e cada vez mais se aproxima o dia em Setembro em que estarei de volta ao meu lugarzinho... Mas ao mesmo tempo que corre desenfreado - parecendo que ainda ontem recomeçaram as aulas, e já estamos em Junho, e já tive os exames de meio de semestre de Japonês - simultaneamente, o tempo brincalhão anda a gozar comigo, e vai-se arrastando até mais não.
A minha rotina anda na mesma. As aulas de Japonês que são a minha tortura diária, mais as de Mestrado em que posso respirar e aproveitar, mais as pequenas investidas na minha pesquisa... A minha pesquisa, essa pelo menos começa a tomar contornos mais definidos, mas quando penso em tudo o que há para fazer antes de regressar, sinto-me desmotivar, porque penso que não vai ser suficiente. A minha pesquisa precisava de muito mais tempo no Japão, mas eu não conseguiria suportar continuar aqui, a minha sanidade mental e a minha condição física não iam aguentar. Às vezes olho para os muitos estudantes internacionais, e os muitos estrangeiros que aqui vivem e penso se eles terão alguma coisa que eu não tenha, alguma força maior que os ajuda a ultrapassar aquilo que a mim me deita abaixo. Não sei se será esse o caso, mas sei que conheço demasiado bem um tipo de vida que é muito diferente deste. Este período deste lado mostrou-me muita coisa sobre mim mesma, e nem sempre gosto do que vejo em mim. Não sou o ideal de pessoa que aspirava ser, e nem sei se o vou conseguir ser um dia. A minha abertura cultural e o respeito pela diferença são postos a provas de fogo, e nem sempre passa. Revolto-me com muita coisa à minha volta, e dias há em que tenho de me bater mentalmente para ultrapassar o mau humor que sair à rua me causa. Faltam-me tantas coisas aqui.
A verdade é que nem tudo é negro, mas em certos dias o sol não brilha por mais que eu queira. O que me vale são os laços que me prendem a Portugal, e com quem falo com alguma regularidade, eles mostram-me a pessoa que eles vêem em mim, mesmo quando eu me esqueço, e isso é muito importante.
Mas voltando à minha pesquisa. Fiz a minha primeira conferência pública, num encontro que reuniu professores de todo o Japão sobre diversos temas ligados à Educação. Quase todos eram estrangeiros, e foi tão bom ter estado lá, dois dias, com eles, a partilhar experiências e ideias, a conhecer um mundo novo, o da pesquisa a sério. Claro que me senti mesmo amedrontada. Algumas das pessoas que assistiram à minha conferência eram investigadores no mesmo campo de estudo que eu, a focar aspectos semelhantes, mas eles contam já com anos de investigação, e eu só estou ainda a aprender a gatinhar! No final, esperei ansiosamente pela reacção deles, e fiquei surpreendida pelo apoio que me deram, os conselhos e sugestões que me apresentaram, e sobretudo por me terem tratado como alguém igual a eles, apesar de ainda sem muita experiência.
No Japão tenho questionado muito o meu posicionamento na hierarquia social. No meio de Japoneses, e sobretudo se a Língua a usar for o Japonês, o meu lugar é o de um bebé. Um ser incapaz de fazer algo por si próprio, que não tem voz, não consegue falar. A imagem que as pessoas nesses contextos devem ter de mim é a de um ser transparente, vazio, minúsculo. Isto afectou e continua a afectar-me muito, porque nunca antes me tinha sentido assim. Nem quando era criança me sentia assim (sempre fui responsável, e sempre me habituei a que os adultos me tratassem como alguém capaz), e mesmo quando estive em Inglaterra, não houve nenhuma situação em que me sentisse inferior só por não ser "native speaker". Em Português, Inglês, Espanhol (ainda que sem o ter estudado formalmente) e até no Francês (em que falar é difícil para mim) me sinto capaz de me mostrar como uma pessoa inteligente e capaz de falar sobre uma multiplicidade de tópicos. Em Japonês o caso muda de figura. Claro que melhorei desde que aqui cheguei. Tenho aulas todos os dias, já sou capaz de ler muitos "Kanji", e consigo perceber discursos em velocidade de "native speaker" dependendo do tipo de linguagem e o tópico usados. Percebo muitas das coisas que ouço, mas quando quero abrir a boca sinto-me gaga. Ou pior, sinto-me muda de repente, a imagem é a de alguém que abre a boca confiante de que vai falar, mas cuja voz falta no momento crucial.
Mas há coisas que estão a melhorar, e não deve ser à toa que todos os estrangeiros dizem que o primeiro ano é o pior. Bem, para mim será o único. Espero regressar um dia, ou muitos mais dias ao Japão, e mesmo a Tóquio, mas da próxima só como turista, ou noutro tipo de visitas breves.
Por falar em mudanças, no mês passado houve uma grande mudança: na cor do meu cinturão no Shorinji Kempo. Passei o exame 3Kyu (sankyu), e por isso agora estou no primeiro nível de cinturão castanho. O meu novo cinturão é lindo, não por causa da cor, mas porque só para nós que nos vamos embora antes de alcançarmos o cinturão negro, o clube encomendou um cinturão castanho com o nosso nome bordado em dourado. Pode não ser muito, e claro que não significa que eu esteja pronta a defender-me em qualquer situação, mas sinto que percorri um longo caminho, a conhecer a minha vulnerabilidade e a minha força, e a aprender coisas que me poderão ser muito úteis. Espero poder continuar em Portugal, se não nesta arte marcial (que realmente preferia continuar) então noutra, uma que foque o aspecto de defesa como esta o faz, e que seja fundada em ideias que partilho, tal como partilho dos desta.
Nesta semana uma outra novidade vai acontecer. Vou ter a minha primeira visita de Portugal. A minha orientadora vem passar férias ao Japão. A minha orientadora também é apaixonada pelo Japão, e vai cá ficar três semanas. Vou estar com ela já na sexta-feira, e nem posso descrever como vai ser bom rever uma cara amiga e familiar.
Bem, mais novidades deverão aparecer nos tempos vindouros, e eu cá tentarei dar conta delas, mas até lá por aqui ficam votos de que todos se encontrem bem. E se quiserem dar-me notícias, estejam à vontade.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Passeios em Tóquio

Demorou, mas finalmente chegou, o dia em que vou deixar-vos com mais novidades daqui destas partes do globo. Nem em férias tive muito descanso, e confesso que o meu cansaço nem foi tanto físico.
O tempo que passa muda-nos e vai-se tornando diferente consoante a nossa rotina. Estar de férias deu-me tempo para pensar, e os meus pensamentos nem sempre foram alegres, nem sempre estiveram aqui em Tóquio, e as saudades de Portugal apertaram. Mas já chegou Abril, e as aulas vão recomeçar, a Primavera está a chegar em força e as árvores começam a cobrir-se de flores. O meu espírito está a começar a ficar mais animado, e até as temperaturas estão a ficar mais agradáveis e a contribuir para que me sinta melhor.
Ontem, para aproveitar o bom tempo fui até ao Monte Takao, com 600 m de altitude, mas essa é uma história que quero contar com imagens, e por isso limito-me a dizer que foi óptimo estar em contacto directo com a Natureza, a caminhar pelo meio da floresta, ouvir o vento, as folhas, os pássaros. Bolas como sinto falta desse tipo de ambiente. Um dia, meio dia na verdade bastou para revitalizar o meu espírito, ainda que o corpo se esteja hoje a queixar da longa e dura caminhada.
Desta vez tenho poucas palavras e muitas imagens para deixar, o que espero ser do vosso agrado.
Primeiro, deixo um vídeo com fotografias que fui tirando quando ainda morava na residência, em passeios nos arredores. O centro de Tóquio é algo bem diferente do que aqui se poderá ver, uma vez que estas são as áreas suburbanas da Capital, mas tudo dá uma ideia de como é a vida aqui.

Depois, deixo um outro vídeo, este bem longo, da minha visita à Disneyland Tóquio, com os meus amigos internacionais. As fotografias são minhas e de uma das minhas amigas para que possam ver ainda mais!

Espero que gostem destas pequenas recordações em forma de imagem. Aproveitei para incluir também algumas das músicas que agora ouço por estes lados, algumas recentes outras nem tanto, umas com maior outras com menor qualidade - afinal, o fenómeno da música é semelhante em qualquer parte do globo, mas isto é só uma pequena amostra de alguns artistas aqui no Japão!

Volto em breve, com mais novidades para contar e mostrar.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Épocas de festas...


Cá estou eu de novo, para voltar a falar de assuntos passados porque na altura se tornou impossível falar neles. Desta vez vou contar em pormenor como foi a minha época de festas por estes lados.
Dezembro é uma altura de muitas festas para mim. Começa com o meu aniversário, passam uns dias e vem o Natal, e depois tudo culmina na Passagem de Ano, com um novo recomeço de vida, ou seja o retorno à mesma rotina, ou a decisão de mudar de vida para o novo ano (se bem que estas resoluções nem sempre acabem por se concretizar...).

Desta vez, Dezembro foi diferente. Era o mesmo mês, o calendário marcava a passagem dos dias da mesma forma, mas a verdade é que algo não parecia igual. O meu aniversário decorreu de forma pacata como já expliquei. No vídeo abaixo podem encontrar um pequeno clip de fotografias do jantar com o clube de Shorinji Kempo, e da minha micro festa com os amigos que fui conhecendo por cá. Infelizmente a altura não foi das melhores, muitos trabalhos e um tempo gélido e de chuva, por isso no total fomos apenas 5 a reunirmo-nos na Universidade, mas posso garantir que apesar de poucos, foi uma óptima celebração. Mas o melhor de tudo, foi mesmo a festa que tive em directo de Portugal, na madrugada de Sábado (13) para Domingo (14), com os meus familiares e melhores amigos reunidos na minha casa. Nunca esquecerei como foi importante falar e conviver com todas estas pessoas tão próximas ainda que à distância de um clique e de uma webcam. Muito obrigada a todos por me ajudarem a festejar o facto de estar a ficar um bocadinho mais velha (e, esperemos, mais madura e crescidinha - ainda que sempre com uma forte resolução de manter o meu síndrome de Peter Pan!).

Um pequeno passar de umas luas, e chegou a vez de celebrar o Natal. Em Portugal e pelo ocidente discute-se o crescente consumismo e a forma como o significado religioso se perde nesse mar de prendas para comprar e oferecer, no dinheiro que falta sempre, na comida que nunca chega, nos familiares que vêm sempre ou que nunca vêm...Enfim, é sempre o mesmo stress, sempre as mesmas confusões, mas por todo o lado cheira a Natal, e parece que o espírito da época, o zeitgeist (perdoem-me os erros mas alemão realmente nunca estudei!) natalício enche tudo. Ou pelo menos é isso que se passa comigo. Mas não neste ano. O Japão vibra em acorde dissonante nesta época do ano. Fora os muitos católicos e cristãos que por aqui se encontram, ou que daqui são, os restantes Japoneses vêem o Natal como um Dia de São Valentim. Uma data a comemorar com a cara-metade, de preferência na Disneyland ou na Disneysea (para quem já não consegue entrar na primeira, ou porque esta tem fama de ser para casais!), com uma boa dose de romantismo, e até, há quem diga, uma noite passada entre lingeries e comidas afrodisíacas em que não dispensam muito chocolate à mistura. Conseguem perceber o meu choque! Da primeira vez que disse que o Natal era uma data especial para passar com a família, e que na Passagem de Ano se juntavam os amigos em festas de animadas, os Japoneses à minha volta olharam-me como que para uma espécie de outro planeta, e eu interroguei-me sobre o porquê da sua reacção. Depois é que me explicaram: por estes lados passa-se exactamente o contrário: o Natal é para a alma-gémea, e a Passagem de Ano é a data a passar com a família, na terra natal e em perfeita serenidade e solenidade. Agora já sei como se sentiu a Alice no Outro Lado do Espelho, parece igual, mas nada o é mesmo!
E que fazer então numa data que aqui quase não significa nada do que normalmente deveria significar? Bem, vai-se passear com os amigos internacionais, cada qual com o seu credo e tenta-se passar um dia mais ou menos na companhia de quem nos é mais ou menos próximo. O nosso passeio foi até Ikebukuro, onde se encontra um centro comercial gigante que inclui um aquário e um planetário nos pisos de cima. Depois de um almoço num restaurante italiano fomos para o Sunshine City, e começámos a procurar o aquário. Depois de algumas voltas lá chegámos e decidimos que o planetário seria melhor. O espectáculo foi substancialmente diferente do que eu esperava, mas no fim, três de nós sentiram-se orgulhosos por terem conseguido perceber mesmo sem um nível elevado de Japonês e dois de nós sentiram que tinham tirado uma boa sesta durante o espectáculo! No final concluímos que se calhar o aquário teria sido mais interessante, pelo menos poderíamos ter visto o show dos pinguins e das focas.

Saímos e fomos tomar uma bebida quente a um café muito VIP que ficava a caminho da estação, para seguirmos para a missa de Natal especial (porque a meia-noite foi trocada pelas 19h), organizada na Universidade. O café era interessante, o preço é que não foi assim tão agradável, mas enfim, era Natal! Em baixo poderão encontrar uma foto lá tirada. Acabámos por chegar atrasados à missa, comigo já em brasa porque o pessoal parecia não estar minimamente preocupado, e ainda tivemos de esperar cerca de 30 minutos numa fila para poder entrar no auditório onde já se encontrava a decorrer a missa. Aparentemente a hora era para cumprir mesmo não havendo tempo de sentar todas as centenas de pessoas que pretendiam assistir ao serviço religioso, que decorreu, em Japonês (foi interessante, o ritual é tão padronizado que nem com a diferença da língua uma pessoa deixa de perceber exactamente o que está acontecer) . Interessante de ver foi o edifício de entrada na Universidade em que, com as luzes de algumas janelas acesas, se desenhava uma cruz. Depois acabámos a noite no apartamento do J. (que acaba de voltar para França - bonne chance!) a jantar sushi e massa chinesa! Claro que foi engraçado, mas não foi realmente Natal. Natal, tive um bocadinho depois de chegar a casa, com os meus pais, através da internet. Sim porque, apesar da distância, estive presente na ceia de Natal e na abertura das prendas!

Mais alguns dias passaram e chegou o dia 28 de Dezembro de 2008, o dia da partida para Kanazawa, para ir passar a Passagem de Ano a casa da família de uma das minhas amigas que esteve por aí por Portugal aqui há uns tempinhos. Dada a quadra festiva ela partiu antes de mim e eu estava confiante que não teria qualquer problema na viagem uma vez que já a tinha feito com ela uma vez. A viagem normal demora cerca de 4 horas de shinkansen (o comboio rápido), e inclui uma mudança mais ou menos ao fim da primeira hora. Nesse dia tudo foi diferente, mas essa, como dizia Michael Ende, é uma outra história, e será contada noutra altura. Mas enfim, lá cheguei ao meu destino bem gelado, mas sem estar coberto de neve. Pelo caminho, mesmo estando com uma disposição que não deu para apreciar convenientemente as coisas, pude ver zonas de planície cobertas de neve. Cenários vestidos de branco, com as montanhas e as árvores todas cobertas de neve, cortadas apenas pelos rios que corriam a atravessá-las. Como gostava de ter podido apreciar tudo isto de uma outra forma.

Os dias que passei em Kanazawa foram uma mistura de alegrias, mas com um fundo de tristeza porque as saudades de casa fizeram sentir-se bastante. Fiz vários passeios com a minha amiga pela cidade. Visitei o Castelo, Kanazawajoo, que é uma reconstrução do antigo que lá existiu, feita há menos de meio-século. Visitei-o por dentro e pude admirar a construção tipicamente Japonesa em madeira - em que nenhum ferro é usado (nem pregos, parafusos ou outros - a madeira tem cortes que fazem encaixar cada peça noutra, e assim se vai montando um puzzle sólido e robusto, sem juntas). A vista do cimo do castelo era muito bonita e de um dos lados vê-se o mais importante parque da cidade, e um dos três parques mais famosos do Japão, o Kenrokuen. Dito no nome, este parque inclui as seis (roku) características consideradas como as mais belas num jardim (segundo a tradição zen, se não estou em erro), entre as quais se contam as pequenas dimensões, e o facto de ter muita diversidade de espécies e de espaços. O parque é lindíssimo, com um magnífico lago; inclui casas de chá junto a pequenas quedas de água, e uma estátua imponente do (segundo reza a lenda) primeiro homem a habitar o Japão. Apesar do frio gélido, a neve não cobriu o parque durante a minha visita, e se bem que nevou quando o estava a visitar, não foi o suficiente para se acumular nas cordas que protegiam as árvores (e que se podem ver nas fotografias no clip abaixo). Tivemos ainda a oportunidade de fazer uma visita guiada ao Ninja Dera, ou pelo menos é assim que é conhecido o chamado Templo Ninja. Na verdade nada neste templo teve ligação com os clãs ninja, era simplesmente o templo em que o governador da cidade rezava, mas dadas as medidas extremas de segurança que inclui, ficou conhecido como tal. Em três andares o edifício conta interiormente com 7 camadas de divisões, isto porque por fora nenhum edifício podia ser mais alto do que três andares. Escadarias, entre as visíveis e as escondidas, contam-se cerca de 37, e segundo a lenda, existe um túnel que liga um poço interior ao Castelo da cidade (que fica ainda a uns bons quilómetros de distância). Escusado será dizer que adorei a visita!!!Ninjas, mistério, lendas antigas e toda aquela aura de secretismo deixou-me completamente entusiasmada, e por momentos lembrei-me de como ficara fascinada em pequena ao saber que o sítio da Vista Alegre tinha algumas lendas a ele associadas.

O dia 31 de Dezembro chegou, mas por estes lados tudo gira em torno da manhã do dia 1, e por isso, na noite da Passagem, eu, a minha amiga e a sua mãe fomos assistir a um concerto de música clássica - o kountodaun consaato, ou Count Down Concert. Foi muitíssimo interessante, tinham inclusivamente artistas convidados, estrangeiros e nacionais (tenores, violinistas, pianistas) e enfim, todo o repertório foi fantástico. No meio do espectáculo houve tempo para um jantar, que estava incluído no preço do bilhete (das ofertas - sushi, crepes doces, soba noodles ou sandwiches - podia escolher-se uma, mas o bar era aberto, assim como os "barris" de sake). Voltámos a entrar eram 23.40h, e alguns momentos antes da meia-noite entraram em palco todos os 10 convidados da festa, cada um com uma placa com um número. À medida que se fazia a contagem, o convidado baixava a placa, e no final apresentaram-nas viradas ao contrário, onde se podia ler omedetou gozaimasu (Muitas Felicidades, ou neste caso, Feliz Ano Novo, ainda que a expressão na manhã do dia 1 deva ser kotoshi omedetou gozaimasu). No regresso a casa, perto da uma da manhã a minha amiga ainda quis passar num templo para rezar pelo Ano Novo. Aparentemente a família dela costuma fazer mais do que uma visita, e escolhe o templo de acordo com o propósito do pedido. O templo em que parámos era especificamente para sorte nos estudos, isto porque ela se encontrava em véspera de ter exames de fim de curso. Infelizmente, ao vento e à chuva, naquela hora da manhã, centenas de pessoas faziam fila no templo para rezar, e por isso a visita foi adiada para o dia seguinte, sendo que o pai dela também foi, e aproveitaram para trocar a seta do altar de casa por uma com a placa do novo ano, o Ano da Vaca/Boi (Ushi designa ambos uma vez que as palavras não têm género, mas a tradução em Inglês é Ox, que corresponde ao masculino, ainda que os desenhos que vi em símbolos e cartões alusivos representasse o que me pareceu uma Vaca! Enfim, alguma confusão neste aspecto).

O dia 1 começou pelas 10 da manhã com um pequeno-almoço ao estilo brunch, como poderão ver nas fotografias, com muitas comidas deliciosas (cada qual com um significado de boa sorte e prosperidade para o ano) servidas no tradicional serviço de fibra preta e vermelha com acabamentos em kin paku (pelo que, segundo a minha amiga me explicou, a caixinha preta que podem ver custou, há 24 anos atrás, mais de 1000 euros, e foi a prenda de casamento dos pais da noiva). Não faltou o tradicional sake também ele com folha dourada dentro, servida nas tacinhas vermelhas. Era tradição por isso também provei, mas acho que não cheguei a engolir or pequenos flocos de ouro para me dar sorte. Depois destas comidinhas, e de já estarmos bem cheios, fomos visitar a família do lado paterno da minha amiga. Aí foi-nos servido novamente um almoço, desta vez muito tradicional, com sashimi (para minha grande preocupação - ainda bem que tinha comido antes! Claro que apresentei as minhas desculpas, e todos pareceram compreender). O sake foi sendo constantemente servido e a tarde foi passada em muitas conversas diferentes. Finalmente, ao cair da noite voltámos para casa, para um serão pacato, depois da visita ao templo.
No dia 2, o meu último dia completo lá, uma vez que regressei no dia 3 no autocarro nocturno, fomos jantar a casa da família do lado materno. Uma fotografia de todos os presentes pode ser vista no clip (faltava apenas a mãe da minha amiga porque, sendo enfermeira, só chegou quase no final do jantar). Nesse dia, de manhã, fomos com o pai da minha amiga visitar a parte antiga da cidade. Ruas de casas ao estilo tradicional fizeram lembrar os filmes que mostram os tempos de Japão feudal. Quase todas estas casas era salões de chá antigamente, agora foram convertidas em lojas de lembranças da cidade, em que a folha dourada marca presença, desde cartões até bolos cobertos com ela. De tarde, fomos as duas, visitar o museu de Arte do Séc. XXI recentemente aberto, e a experiência fez-me lembrar Serralves. As exposições contavam com trabalhos de artistas nacionais e internacionais e de todos eles o que dá mais que falar é a piscina que podem ver na fotografia. Trata-se de uma sala com um tecto formado por dois vidros, no meio do qual se encontra água, mais ou menos 10 cm de altura, mas quem vê por cima parece uma piscina cheia de água - o artista, se não estou em erro é Sul Americano, mas agora não consigo precisar. O jantar começou por volta das 17h, e foi com uma barriga a dar horas que todos nos sentámos a apreciar as belíssimas travessas que foram postas na mesa. No final do banquete a sobremesa foi europeia, com os nossos tradicionais Natas do Céu e Bilharacos, feitos por mim, e com gelados HaggenDasz. Foi um serão fantástico, só tive pena de não conseguir falar mais Japonês, mas mesmo compreender era difícil dado que em Kanazawa se fala com um sotaque diferente do padrão. Antes de nos virmos embora ainda jogámos um jogo tradicional Japonês, em que uma pessoa de olhos vendados tenta construir um rosto colocando nos locais a que pertences os olhos, boca, nariz, orelhas e sobrancelhas. Na foto quem está a jogar é a minha amiga, mas quer eu, quer o primo dela de 9 anos também tivemos a nossa chance, e no final, até posso dizer que não me correu assim tão mal.

O dia da partida foi passado fora de casa, pela zona de lojas da cidade. Acompanhadas do primo da minha amiga que queria gastar o seu dinheiro da Passagem de Ano (é tradição que os mais novos recebam dinheiro de todas as pessoas da família - agora já percebem porque é que é bom ter famílias pequenas aqui por estes lados!!!), fomos vendo as lojas, e ainda acabámos por comprar alguns doces.
Por volta das 22h chegou o momento de dizer adeus, e até uma outra oportunidade. Eu e a minha amiga apanhámos o autocarro que, durante toda a noite, nos trouxe de volta a Tóquio. Chegámos por volta das 7 da manhã, cansadas e com o pensamento já nas aulas que começariam novamente no dia depois do seguinte. E assim terminou a época das festas de fim de ano. Espero que tenha sido interessante ler o que acabo de escrever, ainda que só possa garantir que não vos transmitem nem uma ínfima parte de tudo o que vivi, experimentei e passei aqui por estes lados, mas contra isso nada mais posso fazer.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Jantares de Final de Ano ("atrasado e fora de lugar", como dizia Jorge Amado)

Jantares de despedida antes da entrada no Ano Novo. Por estes lados é uma tradição a cumprir. Não me foi particularmente estranha esta tradição, já que em Portugal, por alturas de Natal e Passagem de Ano, multiplicam-se os “Jantares de Natal”, com os amigos, os colegas de curso, trabalho, enfim, de tudo e mais alguma coisa. E que incluem estes ‘ajuntamentos’? Isso já toda a gente sabe: muita comida, ainda mais bebida, e muitas prendas à mistura, tudo com boa disposição, sob o pretexto de aproximar as pessoas e proporcionar a quem era estranho, no início, momentos de socialização com os demais. Por estes lados, é quase a mesma coisa. Algumas coisas não mudam, independentemente de onde nos encontramos no globo terrestre.
O meu final de ano foi marcado por três jantares, todos em bom espírito de época, um dos quais incluiu até o nosso famoso “Amigo Invísivel” depois de eu o ter sugerido, o que pareceu agradar aos colegas.
O primeiro destes jantares ocorreu com o pessoal do clube de Shorinji Kenpo, no dia do meu aniversário. Na verdade foi um jantar que teve vários propósitos em simultâneo, e em que esteve presente um dos nossos sensei. Para além de ser o meu aniversário, os meus quatro colegas cinturão castanho, que haviam recentemente passado ao segundo escalão dentro do grau castanho, fizeram discursos a agradecer aos senpai (os nossos superiores, ou seja os cinturões negros)e, claro ao sensei, toda a ajuda que lhes havia sido dada, e expressaram a sua vontade de continuar a esforçar-se para alcançar níveis mais altos na prática das artes marciais. O jantar foi também marcado pelos discursos de dois capitães de outras Universidades que haviam treinado connosco nesse dia, o capitão da Keio University e a capitã da Waseda University (se não estou em erro), que agradeceram o óptimo treino que tiveram na nossa Universidade e deram muita força ao nosso clube para continuar a treinar e a inovar (sim, porque apesar de ser a mesma arte marcial cada Universidade, através dos seus sensei – professores – e daijou – capitães – vai inovando nos treinos e nos próprios movimentos e técnicas, pelo que podemos sempre aprender muito uns com os outros, e por isso mesmo é comum pessoas de um clube irem aos treinos dos demais, sobretudo os capitães e cinturões negros). No final o capitão fez anunciar que era o meu aniversário e cantaram-me o Happy Birthday, ao que se juntaram vários outros grupos no restaurante para minha grande surpresa, e algum embaraço. Foi uma noite muito divertida, e permitiu conhecer melhor algumas das pessoas com que treino regularmente, mas que até então não conhecia bem. No final, o sensei tinha uma surpresa muito particular para todos os rapazes. Depois de sairmos do restaurante, no passeio de cimento, com toda a gente a passar às 23.30, os rapazes foram mandados pôr-se em posição de flexões, mas de punhos. O sensei assistiu a rir-se enquanto os meus colegas sofriam a fazer cerca de 40 flexões de punhos, e depois tiveram de manter-se em baixo, entre cada uma, vários segundos. As raparigas assistiram simplesmente, enquanto o sensei contava e tirava fotos com o telemóvel. Foi algo que me marcou um bocado, e ,para mais, alguns dos rapazes estavam já bastante bêbados, mas todos se riram apesar do esforço e dos nós dos dedos marcados pelo cimento.
O meu segundo jantar foi de uma natureza diferente. Depois da última aula de Action Research, no dia 18 de Dezembro, o pessoal do curso de Mestrado em TESOL, e o professor W., dessa cadeira, foi todo até um restaurante nomihodai (ou seja, tudo o que conseguir beber e comer num espaço de duas – por vezes três – horas, sendo o pagamento uma quantia fixa por pessoa – rondando os 2000 e 3000 ienes). Eramos nove pessoas, 4 alunas, 4 alunos e o professor, mas claro que as idades variam muito nos cursos de Mestrado, por isso o tipo de conversas e de socialização foi muito diferente do jantar com o clube de Shorinji, que é quase maioritariamente mais novo do que eu. Foi uma noite muito agradável. A comida era muito saborosa, e segundo os meus colegas os vinhos e demais bebidas eram-no também, mas o mais interessante foram as explicações que os meus colegas me iam dando sobre os tipos de comidas que eram servidas e a melhor forma de as comer. Tive algumas lições de gastronomia o que foi interessante. Depois discutiu-se investigação, ensino, a dificuldade de conciliar a vida pessoal e a profissional, entre muitos outros temas. Claro que no final do noite alguns elementos estavam já algo animados, mas ainda houve espírito para, à saída do restaurante, trocarmos as pequenas lembranças que o pessoal aceitou trazer (até o professor participou), mas o método de troca foi bastante diferente. Fizemos um círculo, e enquanto eles cantavam em japonês uma música ao estilo do Um Dó Li Tá, fomos passando as prendas em sentido dos ponteiros do relógio, e quando acabou, ficámos com a prenda que tinhamos na mão. A mim calhou-me a do N.I., um boneco de neve, oco, e no seu interior uma moeda de 500 ienes comemorativa de um evento internacional que aconteceu aqui no Japão. É uma linda moeda de colecção, e por isso espero guardá-la bem.
O último destes jantares aconteceu no dia 22 de Janeiro. Foi com os funcionários da escola de Línguas onde trabalho em part-time, a 7Act. Ao jantar foram os funcionários do escritório, incluindo os managers, e ainda alguns dos professores de Inglês do Success Course (eramos quatro na altura: uma rapariga Canadiana, uma rapariga e um rapaz Ingleses, e eu), e ainda apareceram dois funcionários de uma nova escola que pertence à 7Act, intitulada Manabiba que se dedica mais ao ensino de crianças – e onde eu comecei na semana passada a trabalhar, como monitora do playroom (tomo conta de crianças, bebés algumas delas, enquanto as mães têm aulas de inglês na sala ao lado – está a ser mais uma aventura nova para mim!). Foi muito divertido. Ficámos a conhecer-nos todos muito melhor, e eu descobri coisas fantásticas: como por exemplo, que o Inglês que dá aulas comigo é formado em Ciências, ou que o nosso senior manager é filósofo e já tem um livro (ficção – uma novela) publicado. Foi fantástico, sobretudo porque todos vimos de lugares e áreas diferentes, e temos ideias também distintas. A partilha de experiências foi deveras interessante, ainda que o álcool em excesso tenha sido por vezes um entrave ao fluir das conversas (novamente foi num nomihodai, mas este era de luxo! Deveriamos ter pago 5000 ienes cada, mas no final a empresa arcou com as despesas! Uff, ainda bem para a minha carteira! Se bem que, mesmo pagando teria valido a pena).
E pronto, foram assim os meus jantares de final de ano, infelizmente só agora consegui ter tempo para vos dar conta deles. Espero que a partilha destas situações vos seja interessante, e se tiverem comentários ou perguntas sobre elas não hesitem em entrar em contacto.

sábado, 31 de janeiro de 2009

A minha vida em Tóquio

Olá, de novo de regresso para dar conta de algumas das coisas com que contacto diariamente aqui, deste lado do mundo.
Peço imediatamente desculpas pela falta de assiduidade nas actualizações, mas este mês foi tudo menos fácil.

Como havia explicado já, encontrava-me em processo de mudança de casa. Deixei a residência onde me encontrava, e mudei-me para um apartamento em Setagaya, onde agora vivo, sozinha. Mas esta mudança não tem sido fácil por uma série de motivos que apresentarei de seguida, mas sobretudo porque coincidiu também com o último mês de aulas do ano escolar daqui, antecedendo os exames e trabalhos finais.

A 23 de Dezembro a Universidade encerrou para férias de Ano Novo (sim, porque o Natal por estes lados não é uma data muito celebrada, e é mais visto como um Dia de São Valentim - mas disso falarei noutra entrada, em que me explicarei melhor), e recomeçou no dia 5 de Janeiro. Tendo ido passar o Ano Novo com a família de uma amiga a Kanazawa (cerca de 4 horas de shinkansen - comboio rápido - ou 8 horas de autocarro), quando regressei não vinha propriamente descansada. E para mais, a minha cabeça já se concentrava na mudança, que aconteceu no dia 10 de Janeiro - dia em que entreguei a chave da residência, e passei a residir na minha nova morada. Essa primeira semana de aulas foi marcada pelo regresso aos estudos, ao meu part-time, e por muitas viagens de malas feitas entre a residência e o apartamento. Foi um processo moroso, e andar com malas carregadas pelos comboios de Tóquio, de vez em quando em horas de ponta, é quase uma aventura hercúlia, mas tudo se faz! Foi uma correria louca, mas no dia 10 estava tudo no apartamento (ainda que não no sítio!).

Depois de começar a viver em Setagaya, que fica a 15 minutos de Shinjuku, de comboio, eu pensei que a minha vida ia tornar-se muito mais fácil, isto porque de Shinjuku à Universidade Sophia são só cerca de 5 minutos por um comboio rápido em direcção à estação de Tóquio. Assim, em teoria, as minhas viagens de e para a escola demorariam cerca de 20 minutos, mais o tempo das ligações. Pois, esqueci-me foi de contabilizar o tempo que levaria da estação, Umegaoka, até ao meu apartamento mesmo (que fica na 'cidade' ao lado, Wakabayashi). Na verdade ainda demoro 15 minutos a pé da estação a casa, e isso faz com que as minhas viagens diárias ainda demorem cerca de 40 minutos (o que sempre são menos 20 minutos do que quando vivia em Saitama, contudo é deprimente pensar que Saitama é tão afastado de Yotsuya como o Porto é de Aveiro, enquanto que Wakabayashi seria como ir até Cacia, mas que na verdade demora-se imenso tempo na mesma). A agravar a isto, o comboio que uso agora continua a estar tão apinhado de manhã como os demais que usava quando vivia em Saitama, coisa que eu não pensava ser possível. Assim, continuo a ter de lutar pela sobrevivência nos transportes todas as manhãs, e de vez em quando no regresso a casa também.

Com a mudança vieram também algumas deslocações necessárias aos serviços. Nomeadamente: o primeiro passo foi ir à City Hall, uma espécie de Câmara Municipal, para informar as autoridades de que havia mudado de residência, e para mudar o meu Alien Registration Card (que é o meu cartão de identificação enquanto estrangeira residente no Japão - obrigatório para todos os estrangeiros que residam cá mais de três meses). Depois tive ainda de proceder às alterações de endereço nos serviços, como o Banco e a companhia de Telemóvel. Ou seja, mudanças exigem muitas deslocações, são processos morosos e que levam algum tempo até ficarem finalizados.

Agora que já vivo na minha nova casa há quase um mês já me começo a habituar à área, e à minha nova rotina. Vivo numa zona residêncial, e uma em que as pessoas devem ter bastante dinheiro (dado todos os BMW e Porches por que passo diariamente a caminho da estação!). Na minha área existem alguns Templos e Parques, pelo que é uma zona agradável para passear num dia de bom tempo (coisa que ultimamente não tem sido constante por aqui). Já encontrei as novas lojas onde fazer as minhas compras habituais, e fiquei particularmente contente por encontrar uma lojita bem pequena e antiga, mas onde encontro a fruta mais barata que alguma vez vi aqui em Tóquio - o preço de viver em Tóquio é exorbitante, mas o da comida, e em particular o da fruta, é de fazer chorar; cada vez que penso que UMA simples maçã num supermercado chega a custar entre 1 ou 2 euros, só me apetece voltar para Portugal - mas nesta lojinha, bem velhota, e em que é melhor a ASAE nunca entrar, a fruta pode não ser tão vistosa como as dos supermercados, mas é decente e os preços são bastante mais agradáveis à carteira. Tenho também uma loja com imensos produtos importados, perto da estação, e lá posso encontrar artigos raros por estes lados como: côco ralado, ou mesmo Ferrero Rocher e Bacci. Ainda só lá fui uma vez, e como todas as lojas em Tóquio é complicado movimentar-nos no meio dos corredores hiper-estreitos e atulhados até dizer chega, mas a lojinha é engraçada, os preços nem são assim tão caros como isso, para produtos importados, e para os amantes de café (que não é o meu caso) podem encontrar lá café em grão de todas as partes do mundo - Kaldi Coffee Shop é o nome desta loja!.

Viver sozinha também me trouxe algumas responsabilidades adicionais. Pagar as contas!!! Na residência, contas como água, luz ou internet estavam incluídas no pagamento mensal (ou semestral), por isso não tinha com que me preocupar. A conta do telemóvel é feita por transferência bancária, e por isso nunca tive de lidar com pagamentos de contas. Agora as coisas são diferentes. Recebo cartas das companhias de gás, electricidade e água, com os recibos para proceder ao pagamento. Mas, na verdade, não é assim tão difícil pagar as contas, basta ir a uma qualquer loja de conveniência (ou konbini), como a 7Eleven (Seven Eleven, abertas todos os dias, como na América), ou a AM/PM, ou Family Mart (enfim, há uma em cada esquina quase) e pagar, eles carimbam e está feito. O mais difícil é perceber: está tudo em Japonês!!! O que para mim é um grande problema. Normalmente tenho de recorrer à minha amiga MM, e à sua mãe, que é minha guardiã no apartamento e todos os assuntos relacionados. Enfim, viver sozinha está a ser uma aventura nova, mas que está a agradar).
O meu maior problema neste momento! A instalação da Internet. Digam o que disserem, net no Japão é um assunto complicado. Sim, têm serviços muito melhores que em Portugal, aqui o state of the art já não é a Broadband que todas as companhias publicitam, mas as ligações de fibra-óptica. Tal como em Portugal a maioria dos serviços oferece packs com telefone e televisão. Depois de comparar serviços na Internet, decidi-me por uma empresa que apresentava as melhores condições com um preço razoável, e contactei-os através do serviço de apoio a clientes em Inglês. Dei início ao processo no início de Janeiro, mas ainda estou à espera da ligação. Sim, porque mesmo só querendo Internet toda a gente tem de ter uma linha telefónica com a NTT, a empresa de telecomunicações mais importante daqui, uma espécie de EDP. Eles têm que vir e fazer essa ligação primeiro para depois a Internet poder ser ligada, e aparentemente os senhores devem estar muito ocupados, porque eu continuo à espera.
Agora já cheguei ao fim das minhas aulas e exames, e depois de mais um trabalho final vou estar oficialmente de férias. Férias essas que vão ser passadas a trabalhar no duro no meu part-time, a dar aulas de Inglês. Vou aproveitar este período a ganhar algum dinheiro, pelo que estou animada com essa perspectiva. Em Março vou ter uma semana completamente de férias, uma semana em que vou com o clube de Shorinji Kenpo para uma ilha no Sul do Japão para uma semana de treino. Claro que entre as sessões de treinos de certo não faltarão oportunidades para passear e conhecer o local, e também socializar com os colegas e treinar o meu Japonês.
Para já as coisas vão andando assim, e por isso as actualizações vão começar a ser mais frequentes. Assim, até breve.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Nova aventura, viver sozinha!


Ano Novo, Nova aventura no Japão...


Depois de três meses a viver na residência, decidi que viver sozinha me traria muitas vantagens. Não é que a minha residência sej má, porque a DK House Warabi, tem umas instalações muito boas, quando comparada com muitas outras que tenho visto por estes lados. Contudo as desvantagens fazem-se sentir: a distância à Universidade – sim, a começar pelos 15 minutos a pé até chegar à estação de comboio, para depois apanhar três comboios das linhas mais complicadas de Tóquio! Só de pensar na hora que levo para chegar às e das aulas, e pior, pela dificuldade que é andar naqueles comboios apinhados e no meio de todas as confusões...Uff, não é fácil! – para além da distância, o facto de ser uma residência muito grande, em que não existem muitas divisões, fazem com que tenhamos de partilhar várias áreas com muitas pessoas – assim, por corredor (com cerca de 40 pessoas) partilhamos as casas de banho, e as máquinas de lavar e secar; para além disso os chuveiros e banhos são apenas dois, um para rapazes e outro para raparigas, para toda a residência, pelo que os partilhamos com todas as pessoas do mesmo sexo (calculo que com cerca de 50 raparigas, no meu caso), e finalmente, a cozinha e a sala comum, que são partilhadas por absolutamente toda a gente (a residência tem capacidade para alojar cerca de 120 pessoas!). Enfim, isto é uma realidade muito diferente da que tive em Inglaterra nas residências da Universidade, em que também dividia algumas divisões com os meus colegas de corredor (mas eramos apenas sete pessoas, e por isso era quase como se fossemos uma família! Lá a minha experiência foi mesmo algo de muito positivo, mas aqui, nem dá para conhecer todas as pessoas que vivem na residência, até porque há sempre pessoas a chegar e a partir. Agora vejo ser a minha vez, de partir.
Arrendar uma casa no Japão é uma das coisas mais difíceis com que já contactei. Enfim, acho que algo sério envolve sempre muita burocracia, mas aqui é de loucos! Comecei por procurar nas agências que alugam a estrangeiros, sim, porque só o facto de sermos estrangeiros nos fecha as portas de muitas agências, e o facto de não falarmos a língua ainda piora as coisas. Nestas agências de estrangeiros, como Sakura House ou Oakridge Houses, podem encontrar-se muitas casas, a maior parte delas conta já com alguma mobília, e têm vantagens como: não necessitar de um fiador (ou garantor) nem exigirem ‘key money’ (que basicamente costuma ser o equivalente a alguns meses de renda que são uma oferta ao senhorio – ou seja, ao contrário do depósito, este dinheiro nunca mais o vemos!). Contudo, dadas as vantagens, tinha de ter algumas contrapartidas. Normalmente a renda mensal é muito mais elevada do que nas agências nacionais. E depois de visitar um colega que vive num apartamento da Sakura Houses, concluí que as fotos do site não correspondem exactamente ao que depois se encontra! Por isso, tudo o que posso aconselhar, a quem procura um novo lugar para morar, é que tenham muita atenção a tudo antes de se comprometerem.
Como estava a ser muito difícil encontrar um lugar para mim, pedi ajuda a todas as minhas amigas aqui no Japão. E através da minha sempre próxima MM, e da sua mãe, consegui encontrar o sítio para onde me mudarei brevemente, e que ainda por cima fica perto da casa dela. Através de uma amiga da família, que tem uma agência imobiliária, encontrei um apartamento bem pequenino (apenas 16 metros quadrados), mas que se encontra num local calmo e bonito, e que é um apartamento completo, ou seja, conto com um quarto, uma pequena cozinha e casa de banho completa, e ainda uma pequena varanda. A primeira vez que o fui ver, depois de a MM já me ter dito o preço da renda e assim, assustei-me. Entrei num apartamento completamente vazio. Nada mais que as paredes. Nem cama, nem uma só estante, nem frigorífico, ou bico de fogão. Nada! Depois me lembrei que isto é normal. Normalmente é assim, mas eu só pensava em quanto teria de gastar para me conseguir mudar. Novamente, pude contar com uma grande ajuda da minha amiga, cuja família se empenhou a arranjar tudo o que é essencial numa casa. Contando com as coisas deixadas por familiares que haviam falecido e de coisas que as famílias já não usam, o meu apartamento conta agora com tudo o que preciso, e muito mais, para viver sozinha, confortavelmente, e por isso dia 10 vai ser o dia de deixar definitivamente a DK House. De lá conservo as boas amizades que fiz, e com quem vou continuar a conviver, nas aulas e nos meus tempos livres! Vou começar uma nova fase aqui por estes lados. Viver sozinha! Mas a verdade é que sinto que nunca vou estar realmente sozinha, até porque vou estar perto da MM, e com ela, e com a familia dela a quem devo tanto, e a quem agradeço muitíssimo toda a ajuda que me têm dado, vou de certo aprender mais sobre como é viver no Japão.

Devo desculpar-me muitíssimo com todos quantos têm visitado este blog. Esta tem sido uma das razões pelas quais tenho andado ainda mais atarefada ultimamente, e que me tem impedido de vos dar tantas notícias como gostaria. Esta é uma época peculiar, a primeira vez que passo o Natal e a Passagem de Ano longe da minha família e amigos próximos, nunca pensei que me afectaria da forma como o estou a sentir... Este pequeno vazio, que nem com a companhia de novas amizades, nem com novas viagens e experiências se preenche! Mas enfim, cá vamos continuando a viagem pelo país do Sol Nascente. A todos quantos me visitarem aqui, e apesar de atrasadita, deixo os meus mais sinceros votos de um Feliz Natal e umas entradas em grande no ano de 2009 que se aproxima, e que segundo o horóscopo oriental será o ano do Boi/Vaca (uma vez que eles não têm divisão em género). Infelizmente o meu ano chega agora ao fim, está na hora de dizer adeus ao Ano do Rato, e de dar as boas-vindas ao próximo. Espero que o próximo ano me traga mais alegrias que este, e o mesmo desejo para todos. Olhando para trás não posso estar senão agradecida! Tenho muito porque agradecer: a oportunidade de trabalhar com pessoas fantásticas, em todas as actividades em que participei; a bolsa de estudos que me trouxe ao país que desde há muito sonhava poder conhecer, e que me dá a oportunidade de continuar os meus estudos, e a minha investigação; a oportunidade de conhecer novos mundos, culturas e línguas; e sobretudo, a oportunidade de travar novas amizades e conhecer pessoas que se têm vindo a tornar extremamente importantes. Por tudo isto estou muito grata ao ano de 2008, penso que, devagarinho, este ano me levou mais perto de descobrir quem sou e o que quero para o meu futuro. Que 2009 me ajude a continuar esta viagem, e que ajude todos a alcançar o que desejam,



Boas Festas a todos



(fonte:ttp://www.sonoo.com.br/mike.html)

P.S.: Já agora para os curiosos, aqui fica esta imagem onde podem ver todos os signos do horóscopo Japonês (e Chinês, mas este tem mais dois signos), e para saberem qual o vosso signo basta seguir a roda no sentido dos ponteiros do relógio, e saber que cada signo corresponde a um ano (mais ou menos, isto não é exacto e pode não funcionar para quem nasce em início de Janeiro), e que em 1984, assim como em 2008, foi o ano do Rato, por isso basta contar para trás e para a frente!

sábado, 13 de dezembro de 2008

A Epopeia de um dia...

Em primeiro lugar tenho de me desculpar por passar tanto tempo sem adicionar novas entradas, mas os meus dias andam muito curtos. Alguém devia tomar a iniciativa de acrescentar algumas horas às 24 já existentes - se bem que o mais provável era que eu acabasse por as ocupar igualmente. Não há volta a dar-lhe, quanto mais tempo tenho, mais necessito de o ocupar para me sentir realizada, por isso acho que devo reconhecer-me como 'Hello, my name is Vera, and I am a workaholic!' (sim, sou, mas desde que me sinta bem, acho que não devo mudar! Dito como uma verdadeira viciada).
Hoje é um dia especial para mim, pois como muitos de vocês sabem, fico hoje um aninho mais velha! Achei por isso que seria bom dedicar-me um pouco a reflectir sobre o que tem mudado na minha vida com o passar do tempo. A verdade é que quando penso no que sou no dia-a-dia nem dou pela passagem do tempo. A maior parte das vezes não me sinto mais velha que um teenager. Mas depois vêm as reuniões com professores sobre as minhas pesquisas, as inscrições em conferências e as tentativas de publicação, e de repente é como se me visse outra pessoa, muito mais velha. E assim, vou balançando entre idades, sem conseguir definir-me pela minha idade que aparece no BI.
Tanta coisa tem mudado, e tem-me feito mudar nos últimos anos. Licenciei-me, entrei para o mercado de trabalho de professores em Portugal (palavras para quê, todos conhecem a situação, alguns em primeira mão), dei aulas numa primária (algo que achava que não iria conseguir, e a verdade é que acabei por reconhecer o quão positiva essa experiência foi para mim), trabalhei part-time na Decathlon (que se tornou numa das melhores experiências que podia ter tido, em que descobri muito sobre mim e aquilo de que sou capaz, e em que fiz amizades extremamente importantes e que espero manter toda a vida!). Depois de tudo isto, embarquei na minha aventura de um doutoramento sem parte curricular, e andei por vezes a navegar sem rumo, até me decidir a contornar o Cabo das Tormentas e enfrentar o meu mais formidável Adamastor. Vim para o Japão, sem grandes conhecimentos da Língua Japonesa! E desde então a minha vida tornou-se uma saga de aventuras que nem sempre se desenrolam da melhor forma.
Neste momento estou a estudar na Universidade Sophia (ou Jochi Daigaku), que é uma Universidade privada católica em Tóquio. Sou aluna de doutoramento, e por isso conduzo sozinha a minha pesquisa sobre a o Ensino da Língua Portuguesa como Língua Estrangeira aqui. Mas, simultaneamente, e por causa da Bolsa de estudos que me foi concedida pela JASSO, sou também aluna de Língua Japonesa (como aluna não licenciada), e aluna do Mestrado em TESOL (Ensino de Inglês para falantes de outras línguas) . No total as minhas cadeiras são quatro, o Japonês (que me dá mais trabalho que todas as outras juntas, mais a minha investigação!), e as três de mestrado: Intercultural Interaction, Affective Factors in TESOL, e Action Research, todas elas em Inglês. Ando normalmente a correr entre os trabalhos de casa e os milhões de testes semanais que tenho de Japonês e os muitos capítulos de leitura obrigatória para as demais cadeiras. Por um momento senti-me frustrada, e pensei que tinha feito mal ter escolhido todas estas cadeiras, mas agora estou a conseguir rentabilizar tudo o que aprendo para a minha pesquisa de doutoramento, e tenho aprendido muito sobre quem eu sou, enquanto pessoa e enquanto professora, nestas cadeiras, com os meus professores e com os meus colegas, todos eles tão distintos de mim.
Para além da minha vida académica, consegui finalmente, depois de algum esforço, ser contratada por uma escola de Línguas privada (aparentemente muito famosa aqui por estes lados), onde me encontro a dar aulas de Inglês. Neste momento tenho dois alunos no Success course, às quartas na escola sede da empresa. Para além desses tenho agora mais uma aluna, mas desta vez nas aulas de café - que são aulas mais casuais, que se combinam em sítios públicos, e mais centradas em conversação.
E finalmente, como não podia deixar de ser, estou numa actividade extra-curricular que é o Shorinji Kempo, que estou a adorar, ainda que as nódoas negras se comecem a acumular!
Uff, parece muito? Então imaginem que diariamente me levanto pelas 6 da manhã. Saio de casa pelas 7.30 para poder chegar a horas para a minha aula das 9.15. Vou normalmente ao Shorinji na hora de almoço, desde 12.30 até às 13.30. Mesmo que não tenha aulas, fico na Universidade a estudar e a fazer os meus trabalhos para a semana (algo que consigo normalmente à justa). chego normalmente a casa por volta das 19h, excepto às quartas, quintas e sábados, em que normalmente só chego por volta das 22h ou mais. Ao Domingo dou a minha aula de café! Entretanto andei em correrias entre departamentos, em comboios apinhados, no meio de multidões de pessoas a correr de um lado para o outro. Enfim, as voltas e viravoltas diárias de alguém que precisa aprender a parar um pouco.
Olhando para trás, penso em tantas outras coisas que gostaria, poderia, deveria ter feito, e por vezes isso entristece-me. Penso no "What if", e os 'ses' por vezes fazem-nos arrepender e sentir menos bem em relação a muita coisa, mas sabem que mais, eu considero que todas as nossas escolhas são as acertadas, porque podemos aprender com todos elas, ainda mais com as menos boas!.
Se morresse hoje (o que seria irónico uma vez que as datas de nascimento e de morte seriam uma e a mesma!), a verdade é que não me arrependo de quase nada. Tenho uma família e amigos que me são muito próximos, e com quem posso sempre contar. Pesssoas que me adoram e que eu adoro também. Vivo experiências diferentes que me fazem crescer enquanto pessoa, e batalho pelos meus sonhos na esperança de um dia poder olhar para o meu percurso de vida com a satisfação de ter vivido e alcançado aquilo que desejava. Cometi imensos erros, e já mandei com a cabeça na parede algumas vezes, mas aprendi com todas essas experiências. Já vivi períodos de grande ansiedade, tristeza, incerteza, solidão, enfim, de tudo, mas com esses aprendi muito mais do que todos aqueles que correram sobre rodas. E acima de tudo, sinto-me completamente capaz de dizer que sou muito sortuda porque, pelo menos, fiz as coisas "à minha maneira".
Deixo aqui um pequeno vídeo com algumas das coisas que mais me fazem lembrar o quão boas são as minhas lembranças de Portugal, espero que gostem. Pode não parecer, pela minha falta de notícias, mas a verdade é que estão sempre no meu pensamento, e tenho imensas saudades de todos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Banho de cultura ao Domingo

Há pouco mais de um século atrás a elite cultural portuguesa procurava ir a Paris todos os anos para o seu banho de cultura anual. Pois bem, os tempos mudam, e os banhos de cultura já não são como eram. Eu experimentei o meu próprio 'banho de cultura' aqui no Japão.

Depois da quadra de Halloween, que quer se queira quer não, é mesmo para a paródia, fui convidada para almoçar no Domingo (dia 2). O convite veio da Professora Mita, uma professora do Departamento de Português, que se encontra em sabática este ano, e que eu ainda não conhecia. A professora convidou-me a comparecer no Domingo, no Takashimaya Times Square (um dos centros comerciais mais VIP de Shinjuku, mesmo no coração de Tóquio. Claro que o estatuto VIP paga-se, e as lojas são de Boss e que tais para cima!). Fiquei entusiasmada com a oportunidade de conhecer este novo local, e de poder apreciar a dinâmica de circulação de pessoas por lá. Para além de mim, mais três alunos foram também convidados, dois Japoneses que se encontram a escrever as dissertações de Mestrado, e uma Brasileira de ascendência Japonesa que se encontra cá em Doutoramento.



Exactamente às 13h em ponto eu encontrava-me em frente do restaurante, onde já se encontrava tanbém uma das outras convidadas, a aluna de Mestrado Japonesa. Até lá chegar fui observando a circulação de pessoas. Mesmo num sítio tão caro foi impressionante a diversidade de pessoas que lá se encontrava, podendo mesmo notar-se uma grande diversidade de condições socio-económicas, sobretudo nas áreas de restauração. É bom explicar o porquê da escolha do sítio para este almoço: o Takashimaya tem 14 andares, e a zona de restauração ocupa os dois últimos, sobretudo. As vistas dos restaurantes, não é de admirar, são verdadeiras panorâmicas sobre a cidade. Penso que será um dos motivos que atrairá tanta gente a este local, ainda que fuja um pouco às bolsas, até para a classe média.



O almoço decorreu agradavelmente, sempre com conversas a tocarem temas interessantes, nomeadamente envolvendo relações culturais e linguísticas entre o Brasil, o Japão e Portugal. Debateu-se muito sobre o ensino e a aprendizagem. Debateu-se sobre questões de imigração, enfim, foi um 'banho de cultura' para todos nós, sobretudo porque todos provindo de culturas e experiências pessoais distintas, pudemos aprender todos uns com os outros, particularmente com a Professora Mita, que muito mais experiência de vida tem do que nós.



Uma pequena nuvem cinzenta tolda as minhas memórias deste almoço, pelo que me senti na obrigação de me desculpar perante os demais participantes, em particular com a Professora Mita que tão gentilmente me convidou. O restaurante era um típico restaurante Japonês, de Sashimi. Para os que pouco conhecem da gastronomia Japonesa, o Sushi descreve o comer de peixe cru com arroz, sendo que o foco é o arroz, enquanto que o Sashimi, descreve também a mesma experiência, desta vez concentrando-se no peixe cru. A grande diferença é que: enquanto no sushi existem pratos, como o makisushi ou makizushi, que engloba o peixe cru enrolado em arroz e com alga por fora, no sashimi, as postas de peixe cru vêm separadas do arroz, sendo comidas depois de molhadas em molho de soja com outras ervas aromáticas. Infelizmente, o meu paladar pouco habituado a peixe cru fez das suas, e apesar das caras deliciadas de todos os demais participantes, foi com algum esforço que eu comi a maior parte da comida que me foi servida. Desculpei-me, evidentemente, e expliquei que a adaptação a estes paladares ainda não se completou para mim, ainda que já consiga tolerar e até apreciar alguns tipos de makizushi (em particular o de salmão, que é realmente o meu preferido). Todos concordaram que era algo de difícil habituação. Espero que não tenham levado muito a mal esta minha 'deficiência' gastronómica. Contudo, durante as minhas aulas esta semana, com Japoneses, este assunto foi abordado e fiquei a saber que muitos são os Japoneses que também não apreciam sashimi. De repente senti-me muito mais leve!



O almoço esse, voltando ao assunto desta pequena reflexão quotidiana, prolongou-se depois com um café num bar acolhedor até cerca das 17.30h. Foi um dia muitíssimo interessante para mim, e penso que para os demais também. Foi óptimo conhecer pessoas novas e interessantes, e sobretudo ter a oportunidade de conviver com pessoas de forma algo diferente daquela que experimento diariamente, nas aulas, na residência, ou nas saídas com o pessoal. Espero ter mais alguns banhos de cultura por cá, quem sabe em breve...

domingo, 2 de novembro de 2008

Halloween

Halloween, a Noite das Bruxas, já chegou e já passou. Viver esta data aqui deste lado revelou-se uma mistura de experiências que eu não pensava alguma vez passar. Para começar porque vive a quadra de duas maneiras completamente distintas, e depois para ajudar ainda mais à confusão, decidi fazer uma coisa que nunca tinha feito, e que apesar de engraçada, foi bastante constrangedora.
Comecemos pelo princípio. O princípio da minha entrada na quadra de Halloween foi no Sábado, dia 25 de Outubro – sim, eu sei, parece muito cedo, mas se pensarem no auge do consumismo que é Tóquio, a promoção da quadra começou mais ou menos quando eu aqui cheguei, em Setembro. Mesmo não sendo uma tradição muito antiga aqui no Japão, o Halloween reune cada vez mais adeptos, e as lojas e comércio em geral aproveitam qualquer desculpa para promover o negócio, então é a loucura: desde bolos enfeitados ao espírito da época, até doces criados de propósito, até chegarmos ao auge: os fatos de cosplay (Cosplay significa vestir-se como uma personagem de anime, é algo muito popular entre os amantes do género em todo o mundo! Sobretudo aqui!).
Pois foi, no dia 25, eu e os meus dois amigos Mexicanos, fomos até Umegaoka, uma localidade dentro de Tóquio, muito bonita e acolhedora. Lá vive a minha amiga MM, cuja mãe é professora de Inglês e estava a organizar uma festa de Halloween para crianças. Eu e os outros dois fomos convidados a participar na festa. Foi uma loucura! Desde o meio-dia até às cinco da tarde estivemos os três espalhados na saída da estação de comboio local de Umegaoka, onde estavam montadas várias mesas e postos de actividades para crianças, relativas à época. Foi alucinante a quantidade de crianças, acompanhas pelos pais, avós e restantes familiares, vestidos a rigor, a fazer fila para participarem em todas as actividades disponíveis. A actividade em que eu estive envolvida consistia em cada criança tirar um cartão com uma imagem (ex. Um rato, um dedo, miolos...), e depois procurar o objecto correspondente num caldeirão de bruxa cheio de uma pasta gelatinosa e esbranquiçada, perante a qual várias crianças começaram a chorar. Nunca tinha interagido tanto com crianças Japonesas, e a experiência foi fantástica, ainda que no final estivessemos mesmo muito cansados! A actividade seguinte foi ainda mais surpreendente: houve dois jogos de Bingo, para que a população ganhasse prémios, e em cima do palco quem melhor do que nós os três e dois outros senhores mascarados de vampiros para dar os prémios? Quem diria que eu viria para o Japão, e estaria em cima de um palco a tirar os números do Bingo? De loucos. A noite encerrou com chave de ouro com um jantar no melhor restaurante Japonês onde já comi por cá, um dedicado a Tenpura (que é uma derivação do termo ‘tempêro’ em português, mas que na realidade não se parece com nada que eu conheça na cozinha portuguesa!) e que nos deliciou a todos. Estou extremamente grata à MM, e à mãe dela que foi realmente uma senhora muito simpática e divertida.
Depois desta experiência, a segunda vivência que tive do Halloween foi um pouco mais constrangedora...Já há algum tempo que eu pensava experimentar Cosplay. Então, que melhor altura para o fazer que no Halloween? Decidi-me, e passei a tarde de ontem em Akihabara a procurar o fato de Cosplay que usaria. Depois de muito procurar encontrei: Haruhi Suzumiya! Achei o fato engraçado, e decidi-me. O pior foi depois de o vestir! Primeiro porque estava sozinha e depois porque vestida dessa forma, sendo estrangeira, a verdade é que os muitos olhares surpresos das pessoas à minha volta foram bastante intimidantes. Fiquei espantada. Depois de um sábado numa ‘pequena localidade’ em que todos estavam mascarados e festejar o Halloween uma semana antes, ontem quase não se via ninguém mascarado. Senti-me uma ave rara, e por isso mesmo, muito envergonhada. Depois de me juntar ao pessoal, mesmo tendo de aturar as suas muitas piadas a propósito da minha fatiota, comecei a sentir-me melhor. Fomos até Yoyogi, onde existe um parque onde estivemos a comer, beber e conversar até mais ou menos às onze. Depois demos a noite por encerrada, isto porque não queríamos perder o último comboio e porque chegar a casa ainda demorava mais uma hora!
Happy Halloween (ainda que um pouco atrasadito!)

domingo, 19 de outubro de 2008

Ikkagetsu!

[Um mês, ikkagetsu, um mês inteirinho já passou desde que aterrei em terras nipónicas, e apesar de algumas batalhas épicas, as coisas estão a compor-se. Um bocadinho de cada vez... Hoje foi um dia simpático e pacato, de ficar em casa e estudar e relaxar. As coisas vão ficando mais agradáveis à medida que o tempo passa, ainda que as saudades aumentem exponencialmente.]
Esta é a história de um dragão serpenteante chamado Saikyo. O Saikyo é um dragão prateado, daqueles compridos que se vêem nos filmes orientais, e nas festas do Ano Novo Chinês. Sabem quais são. Aqueles que parecem serpentes gigantes, com o corpo coberto de gigantes e duras escamas prateadas, e com uns bigodes ondulantes que vão ondulando ao lado do corpo enquanto o dragão voa veloz cortando os ares.
Pois é, o Saikyo é um dragão que vive num sítio algo controverso. Não que ele tenha qualquer coisa contra o sítio onde vive, na verdade parece-lhe um local interessante, de contrastes, em que modernidade e tradição se conjugam de forma realmente homogénea. Mas, há um grande problema na vida do Saikyo, um que faz com que a sua vida se torne mais dura do que o que ele alguma vez esperara.
Há muitos anos atrás, neste local onde o Saikyo habita, uma grande população de bolas que se movimentam sozinhas, e com vontade própria, estabeleceu o seu território, e durante muito tempo só essas bolas e alguns outros animais habitavam o sítio e viviam em harmonia com o meio em redor. Mas um dia, um aventureiro bola, partiu à descoberta de novos mundos, e nas suas viagens encontrou um lugar mágico no cume de uma grande montanha de onde saía muito fumo. O que o intrépido aventureiro encontrou foi um pequeno ovo dourado, lindo e brilhante, reluzindo à luz do sol da manhã. Ora, o aventureiro não pudera resistir a tamanho tesouro, pelo que o trazia consigo quando regressara ao seu território. O ovo demorou muito tempo a mostrar que criatura havia no seu interior, mas um dia chocou. E qual não foi o espanto das bolas quando viram na sua frente uma pequena serpente alada, a voar em redor das suas cabeças. De início todos achavam imensa piada ao pequeno animal alado que voava sem asas. Mas com o tempo, a pequena serpente transformou-se num gigantesco e majestoso dragão, e isso começou a perturbar as bolas, que temiam que o dragão as comesse e ficasse com todo o seu território. Não podia estar mais enganadas aquelas bolinhas tontas! O Dragão mostrava a todas as bolas um respeito inabalável, e tão prestável procurava ser que um dia ofereceu os seus serviços à comunidade das bolas. O serviço que o dragão começou a fazer, e aquele que o Saikyo faz também, foi o de transportar as bolas de um lado para o outro no seu território. Este transporte das bolas é exactamente o problema que preocupa o nosso protagonista, como já pude observar muitas vezes, e como me foi dito uma vez pelo próprio Saikyo, num momento em que nos encontravamos mais sós.
Todas as manhãs, o pobre Saikyo vem pelo caminho indicado pelas bolas, e quando chega a uma concentração de bolas, então ele pára e abre os seus grandes poros (sim, porque o Saikyo é gigante, e as bolas, ainda que muitas, são minúsculas comparativamente!), e deixa entrar as bolas que aí se encontram, transportando-as até um novo ponto de concentração, onde algumas saiem e outras entram. A viagem em si é bastante agradável, e a possibilidade de andar sempre de um lado para o outro foi algo que atraiu o Saikyo no início. O problema é, contou-me o simpático dragão, o falta de respeito das bolas na entrada e saída dos seus poros.
" - Eles não entendem como é doloroso para mim abrir os meus poros e deixá-los entrar. - começou ele - Pior, transportá-los a todos enquanto tento voar o mais depressa que posso não é nada fácil. Mas e eles têm algum respeito por mim?Não. Quando estou a fechar os meus poros (algo que é quase impossível de fazer porque todas as bolas querem ir ao mesmo tempo, e por isso apertam-se, espezinham-se, empurram-se...tudo para que possa caber ainda mais uma!), algumas bolas vêem que estou a fechar e lançam-se em voo contra as demais bolas, correndo o risco de ficarem trilhadas nos meus poros a fechar. E eu que tenho sempre medo de os aleijar... Depois, mais apertados que uma lata de sardinhas em conserva com o dobro da dose normal, na mesma embalagem, seguimos viagem, e o meu corpo já quase não consegue levantar tão bem como o faria com menos bolas. Quando chegamos à concentração seguinte é com um alívio enorme que abro os poros, e uma imensidão de bolas sai do meu corpo. Mas, novamente, não saiem calmamente. Não! Estas bolas estão sempre com imensa pressa, acotovelam-se, e se for preciso passam até por cima das outras só para poderem sair dos meus poros mais depressa. "
Sim, realmente Saikyo, consigo entender bem o teu grande problema. Há algum tempo que cheguei ao território das bolas, e aqui procuro ir vivendo e aprendendo mais sobre elas. Mas existem coisas que não dá para perceber. Tão íntegros e respeitadores por um lado, e tão pouco respeitadores do espaço individual de cada um nos dragões públicos. A verdade é que, tal como o Saikyo, também eu acho que as bolas têm atitudes que não considero as mais apropriadas. Mas, assim como o dragão prateado, lá continuo a minha batalha do dia a dia. Um poro de cada vez; uma concentração de cada vez...

domingo, 12 de outubro de 2008

Adaptação

A data aproxima-se. Em breve vou olhar para o calendário e ver que um mês já passou desde que cheguei ao Japão.
As aulas já começaram e mantêm-me bastante ocupada, ou não fossem as toneladas de trabalhos de casa, e os múltiplos testes de Japonês que se sucedem dia sim, dia não. As aulas de mestrado também não são propriamente pouco trabalhosas, antes pelo contrário, mas pelo menos nessas consigo ter a satisfação de participar activamente nelas, isto porque, primeiro são em Inglês, pelo que não tenho problemas em perceber, e segundo porque focam matérias e temas, que não só são extremamente aliciantes para mim, como também já estudei alguns deles, e agora limito-me a expandir e repensar o conhecimento que já possuía.
Para além das aulas, decidira já em Portugal, que enquanto aqui estivesse, iria procurar aprender uma arte marcial. A escolhida foi Shorinji Kempo. Shorinji Kempo é uma arte marcial de auto-defesa própria do Japão. Quase todos os membros, à excessão, primeiro de três, e agora de quatro forasteiros que decidiram começar a aprender, são Japoneses. Somos os quatro mosqueteiros! Facilmente reconhecíveis pelas nossas feições estranhas - olhos mais arredondados e de cores variadas, cabelos mais claros e mais volumosos - como pelas roupas que usamos e que, claro, não enquadram com os demais que usam o "dogi" tradicional desta arte. Mas, a partir da próxima semana só as feições nos distinguirão, porque devem chegar os nossos 'dogi' com o nosso nome escrito em Katakana. Mal posso esperar. Enfim, comecei há uma semana, fez ontem exactamente, e consigo ver melhorias na forma como me mexo e reajo a situações de simulação de combate. Estou extremamente entusiasmada, e quero melhorar tanto quanto possível. Na verdade, nós, os Quatro, estamos todos empenhados, e a entre-ajuda é uma boa forma de avançar.
Ultimamente tenho estudado bastantes assuntos diferentes, e tenho sentido que muito do que estudo me ajuda a compreender melhor onde me encontro, como vivo esta experiência, e sobretudo a interpretar e a direccionar aquilo que sinto.
Estou a viver um período ainda não perfeito. Estou numa espécie de limbo que dá pelo nome de Culture Stress. Quando se cai de paraquedas numa nova cultura, sente-se normalmente um choque, ou Culture Shock, caracterizado pela compreensão da diferença entre as culturas de origem e de chegada. Isso foi o que eu passei no primeiro dia aqui, e que foi uma coisa, não só muito nova para mim (uma vez que não me lembro de a ter sentido, pelo menos tão intensamente, em Inglaterra), como muito difícil de aceitar que estivesse a passar por ela. Eu, que já pesquisara tanto sobre o Japão, que sonho com este país há anos, que procuro aprender sempre mais e mais... Sim, mas saber algo e ser capaz de lidar com esse algo são duas coisas distintas. De alguma forma, esse choque foi "ultrapassado". A razão das minhas aspas é que, na verdade, ele foi meramente recalcado, e permanece activo de forma subtil, mas agora mais profunda e mais difícil de ultrapassar. Para além do Culture Shock, a diferença linguística pode ter consequências devastadoras nas tentativas de adaptação a uma nova cultura. Dia após dia, debato-me com a realidade de que existem muros gigantes em torno das minhas tentativas de comunicar em Japonês. De vez em quando lá retiro um outro tijolo, mas milhões de outros tijolos haverá ainda a retirar. Os meus progressos estão a ser lentos, mas espero que em breve consiga notar diferenças. Aliando todos estes factores, mais o inferno que é a circulação de pessoas nesta cidade (aos magotes em todos os lados; em autenticas lutas pela sobrevivência nos comboios de manhã, à tarde e à noite - em que respirar é uma tarefa hercúlia, e em que ter um cm cúbico de espaço é um oasis no meio do deserto), explica-se o limbo em que me encontro. Tenho reflectido muito sobre o que estou a passar, consigo plenamente avaliar esta situação, assim como os eventuais sentimentos de homesickness que vão ondulando no meu espírito, e para já não creio precisar de ajuda a sério. O simples facto de estar consciente desta realidade, e de saber o porquê dela existir, ajuda o meu cérebro a interpretá-la e fomentar soluções para a resolver. Apesar disso, é um processo que vai ter de se ir desenvolvendo.
Para já continuo a navegar por mares pejados de monstros marinhos gigantes e de criaturas míticas que ainda temo, mas que começam a encolher um pouquinho de cada vez. E qualquer dia, vou conseguir ultrapassar o meu próprio Adamastor...
"Mais ia por diante o monstro horrendo
Dizendo nossos fados, quando, alçado,
disse eu: - Que és tu? Que esse estupendo
Corpo certo me tem maravilhado!
Lusíadas, Canto V, estrofe 49.
“The tragedy of it is that nobody sees the look of desperation on my face. Thousands and thousands of us, and we're passing one another without a look of recognition.” - Henry Miller