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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Light and Darkness

Dia 18 de Setembro, 6.20 da manhã em Portugal, na cidade do Porto, no aeroporto Francisco Sá Carneiro. A minha aventura começou aqui. Neste exacto momento, em que todo o céu era um imenso mar de negro que lentamente se alojou no meu coração, que foi ficando cada vez mais pesado à medida que o avião ganhava velocidade para descolar, começou a minha viagem. Muito cansada física e emocionalmente, acabei por adormecer e a viagem até Frankfurt, onde fiz escala, foi-se desenrolando sucessivamente entre acordar e adormecer, sempre em sobressalto, e sempre com um aperto grande na garganta.
Estava a rumar de encontro ao meu sonho de há algum tempo, então, porque é que havia isto de custar tanto assim? Na verdade não consigo compreender toda esta emotividade. Quando parti rumo a Inglaterra fui tão descontraída que até me surpreendi. Mas Inglaterra é a um passinho de Portugal, e cinco meses não são um ano. O meu espírito não conseguiu encontrar a paz durante a viagem.
Em Frankfurt as coisas melhoraram um pouco. Comecei a consciencializar-me de que estava só, e que agora uma nova etapa me esperava. Durante as horas que passei no aeroporto senti o meu mundo pequenininho face àquela língua que não percebia minimanente. Nunca tive um grande interesse pela Língua Alemã, mas senti-me limitada dentro do meu mundo em que esta língua é imperceptível, e isso foi algo que me desagradou.
Novamente o embarque, desta vez para rumar ao outro lado do Mundo, literalmente. Mais ou menos 10 horas de viagem dentro de um avião para lá chegar. Nunca imaginara o quão exaustiva uma viagem assim seria. Na verdade tive alguma sorte. Perto de mim, e mais tarde ao meu lado (porque troquei de lugar com outra pessoa) sentou-se um rapaz da Suíça, o Matias. O Matias vive há três anos em Tóquio porque está cá a tirar o doutoramento em Design. Acabámos por começar a falar, porque partilhávamos o mesmo espaço livre para pôr as revistas, e assim acabou por ser uma viagem mais fácil porque viemos na conversa durante uma grande parte dela. É interessante como uma viagem assim pode levar-nos a travar amizades com pessoas com quem, provavelmente, nunca nos cruzaríamos. À escuridão da noite que atravessámos durante a maior parte da viagem sobrepôs-se a luz, e foi lá bem alto, acima das nuvens que eu, e o Matias que entrentanto acordara, vimos um nascer do sol que me vai ficar gravado na memória, para sempre. Conversar com o Matias foi sobretudo interessante por toda a informação que ele me pôde dar sobre Tóquio e o que significa viver nesta cidade, que só tem mais habitantes do que Portugal inteiro! Ele ajudou-me no aeroporto e por isso tenho imenso por que lhe estar grata.
Fiquei no aeroporto cerca de 30 minutos até chegar uma coordenadora de Sophia, e depois chegar também a Hitomi, a minha guia até à residência. Com a Hitomi apanhei o primeiro comboio em Tóquio, desde Narita até uma das estações do centro. À medida que o comboio avançava, voltava aquele aperto estranho, e eu senti-me a encolher progressivamente até ficar um ponto minúsculo na enorme cidade de Tóquio. Tudo isto só foi piorando até chegar à residência. O caminho até Saitama é muito longo. Mudámos três vezes de comboio, e o mar de pessoas (e não era nada como em hora de ponta!) era assustador. O facto de não conseguir reconhecer palavra ou caracter não ajudou a que me sentisse melhor, como é previsível.
Este primeiro dia foi mesmo um dia muito difícil e de emoções à flor da pele.
A Luz e a Escuridão abundaram ambas na minha viagem rumo ao sol nascente, mas as coisas vão lentamente encaminhando-se.
Já passou exactamente uma semana desde que aqui cheguei. O meu espírito está mais leve, as coisas estão a ficar mais fáceis, até porque estou rodeada de pessoas fantásticas com quem tenho travado amizade, e que ajudam a tornar mais curta a distância, e sobretudo mais leves as saudades de todos que deixei em Portugal.
As aulas começarão em breve, e todas as coisas a tratar têm sido uma escapatória aos pensamentos de tristeza ou de saudade que poderiam abundar por estes lados. Os reencontros com todas as minhas melhores amigas Japonesas que estudaram em Portugal têm sido fantásticos, e são como lufadas de ar fresco neste clima húmido e abafado. A Mari, a Jun, a Maiko, e também a Misato foram fantásticas comigo, e eu não consigo exprimir as saudades que tinha de estar com elas, sobretudo com as três primeiras que já não via há três anos. Também já tive oportunidade de reencontrar o Professor Mauro Neves, que será o meu orientador, e de conhecer o Professor Ono, de quem tanto apoio recebi, e de quem tanto já tinha ouvido falar.
A vida é estranha por vezes. Ficamos quando só gostaríamos de partir. Partimos quando gostaríamos de ficar. Enfim, as voltas que se dão nas nossas mentes nem sempre são fáceis de compreender, mas o tempo torna tudo mais fácil, ou pelo menos mais aceitável. Aqui começa a minha aventura oriental, e espero que este seja o caminho. Byatt escreveu sobre a necessidade que todos temos de ter um caminho nosso. O destino não é importante, mas a viagem que fazemos para o alcançar. Quero percorrer o meu e descobrir até onde me irá levar.

“You can only come to the morning through the shadows.” - J.R.R.Tolkien